A PSIQUE INTRA-UTERINA
O “caos” da energia psíquica e o fluxo vital de alguns fenómenos que reorganizam esse caos já estão presentes na vida intra-uterina a partir do final do primeiro trimestre. Biologia e psicologia se juntam para iniciar a formação do ser humano como um todo. É, por essa altura, que o feto começa a explorar o ambiente intra-uterino.
Será nessa altura que a memória instintivo-genética começa a incorporar a complexa memória histórico-existencial, ou seja, as RPS (representações psicossemânticas) advindas das construções psicodinâmicas produzidas pelos processos de construção da mente. São actividades complexas ainda sem capacidade para gerarem pensamentos dialéticos e, consequemente a organização da consciência do EU. É provável que, numa fase imediata, haja a produção (reduzida inicialmente) de pensamentos antidialécticos mas insuficientes para organizar a consciência do EU (aqui entendida como consciência da existência de si mesmo).
Esta consciência de SI ocorrerá apenas com a expansão qualitativa e quantitativa da história intrapsíquica e, consequentemente, com a expansão qualitativa e quantitativa da leitura multifocal da mesma graças à formação da memória.
Com o avançar dos meses, o feto adquire capacidades novas a nível mental, desenvolve os sentidos e inicia a sua exploração do mundo. Tem consciência do mundo que a rodeia (os sons, por exemplo) mas é ainda incapaz de conhecer-se a si mesma. Não obstante, há actividade de pensamentos essenciais produzidos pela leitura automática da memória.
A construção da psique
Cury defende que a construção da vida mental decorre em 4 etapas:
1º A partir das matrizes dos pensamentos essenciais (não conscientes) que são provocados pelos estímulos intra-uterinos. Esses pensamentos reorganizam os microcampos de energia emocional e motivacional fetal, expandindo as possibilidades de produção de experiências emocionais e motivacionais através do conjunto de estímulos intra-uterinos interpretados.
2º A partir da iniciação da leitura multifocal da memória histórico-existencial pelos fenómenos inconscientes da psique: o fenómeno da autochecagem da memória, âncora da memória e complexo do autofluxo.
Todos pensamentos essenciais (básicos e inconscientes), as emoções, os desejos e as sensações tornam-se em experiências psíquicas que são registadas automaticamente pelo fenómeno RAM (registo automático da memória) na memória histórico-existencial (mais tarde memória autobiográfica).
Destaque-se o papel da memória genético-instintiva que não tem apenas a função de perpetuar a vida mas também de enriquecer a memória histórico-existencial pois cada reacção instintiva produzida é arquivada como RPS (representações psicossemanticas), expandindo, assim, a história intrapsíquica.
3º A partir das substâncias neuroendócrinas do metabolismo da mãe e que passam pela barreira da placenta. Essas substâncias são produzidas, principalmente, em situações de tensão emocional e stress psicossocial.
Assim, o feto pode ter taquicardias, contracções musculares e ansiedades decorrentes do estado emocional da mãe que vão influenciar a construção da mente, nomeadamente o perfil emocional e a personalidade (mães muito ansiosas geram crianças ansiosas).
Na verdade, os níveis de timidez, de ansiedade diante das situações stressantes, de intolerância diante de frustações, de excitabilidade diante de novas situações, de estabilidade emocional, de insegurança, etc., formam-se logo na vida intra-uterina.
4º A partir da leitura da memória genético-instintiva e das substâncias neuroendócrinas fetais, produzidas pela carga genética, que transmutam microcampos de energia físico-química no campo de energia psíquica.
A história intrapsíquica – ou seja, a história da mente de cada um de nós – é, pouco a pouco, arquivada e produzida inevitavelmente pelo fenómeno RAM (registo automático da memória) ao longo de todo o processo existencial desde a vida intra-uterina.
Ou seja, as estruturas da nossa mente e que influenciam a nossa vida psíquica e os comportamentos no futuro têm uma origem anterior ao nascimento. Na verdade, toda a produção intelectual possui uma relação directa com a história intrapsíquica. Todas a ideias, pensamentos, análises, reacções fóbicas, prazeres, angústias existenciais, desejos, impulsos, enfim, todas as construções psicodinâmicas produzidas pelos processos de construção da mente durante a vida fetal são geradas a partir da leitura da história intrapsíquica.
Sem esse tempo de vida fetal em que se constrói a psique, sem essa história intrapsíquica anterior ao nascimento, não seriamos seres pensantes, não construiríamos ideias, nem tão pouco teríamos uma consciência existencial. Por isso se pode dizer que os fetos pensam muito, mas pensam matrizes de pensamentos essenciais, que são inconscientes.
Assim, todo o ser humano inicia o desenvolvimento da sua inteligência, a construção dos pensamentos e a consciência do EU durante a vida intra-uterina. Aqui convém destacar o que Augusto Cury chama de “mordomos da mente”: o fenómeno da autochecagem da memória, a âncora da memória e o complexo do autofluxo. São eles que “alimentam” a mente e promovem o seu desenvolvimento.
AUTOCHECAGEM DA MEMÓRIA (ACM)O fenómeno da ACM é intrapsíquico, inconsciente e automático. É um processo de registo rápido dos estímulos sensoriais na memória. Ele produz uma ponte de ligação entre esses estímulos e a história intrapsíquica, arquivada na memória.
A ACM alimenta cadeias de pensamentos essenciais (inconscientes) que, lidas virtualmente, geram os pensamentos antidialécticos e dialécticos, estabelecendo, assim, a consciência existencial do estímulo.
Como se processa? Os estímulos do mundo exterior (extrapsíquicos), captados pelo nosso sistema sensorial, são assimilados pelo córtex cerebral, gerando sistemas de códigos físico-químicos que se transformam em campos de energia psíquica e formam os pensamentos essenciais. Tudo isto se passa no inconsciente trabalhando em conjunto com o fenómeno RAM (registo automático da memória), antes pois de ocorrer a assimilação ou a compreensão intelectual dos mesmos.
Assim, a ACM lê a memória, constrói pensamentos e transforma a energia psíquica (sem intervenção da nossa consciência).
O fenómeno da ACM de estímulos externos começa na vida intra-uterina. Mais tarde processará também os estímulos mentais (ideias, análises, emoções, etc.).
A ACM está em permanente actividade ao longo da vida, milhões de vezes por segundo, expandindo a história psíquica já que cada experiência, contacto ou estímulo (interno e externo) é registada pelo RAM.
COMPLEXO DO AUTOFLUXO
O campo de energia psíquica nunca se equilibra, mas vive continuamente em “desequilíbrio psicodinâmico” que permite a expansão de construção da mente. Este conceito de “desequilíbrio psicodinâmico” é extremamente importante e está ligado ao fluxo vital da energia psíquica. A esse desequilíbrio Cury chama de ANSIEDADE VITAL.
O que é a Ansiedade Vital
Diferente da ansiedade patológica, a Ansiedade Vital é fundamental no processo de leitura da história intrapsíquica e da construção da mente e seu funcionamento. É ela que anima o fluxo vital da energia psíquica.
É, para Cury, o “princípio dos princípios” do processo da transformação da própria energia psíquica e do processo de transformação da personalidade. Difere de pessoa para pessoa.
Nas crianças hiperactivas essa Ansiedade Vital é intensa, gerando um grande fluxo de transformações emocionais e motivacionais e hiperconstructividade de pensamentos, que se expressam por agitação e hiperactividade psicomotora. Nas crianças autistas, pelo contrário, a Ansiedade Vital está diminuída, que se traduz numa redução da transformação da energia emocional, numa redução da construção quantitativa dos pensamentos e numa redução da capacidade de interacção e interesse social.
Variáveis que actuam na Ansiedade Vital:
- microcampos de energia físico-química determinados pelo metabolismo neuroendócrino (determinado geneticamente);
- o pool de experiências vivenciadas no meio ambiente intra-uterino;
- a qualidade da história intrapsíquica;
- a estimulação sócio-educacional;
- a operacionalidade psicodinâmica do fenómeno de psicoadaptação, etc.
Conclui-se que a Ansiedade Vital é uma variável intrapsíquica influenciada por variáveis de origem genética, intrapsíquica e sócio-educacional. Ansiedade Vital participa no Complexo do Auto-fluxo e está também ligada a outras variáveis intrapsíquicas como o fenómeno da Âncora da Memória, a Consciência do EU, etc.
O Complexo do Autofluxo (CA)
O CA é activado pela Ansiedade Vital e representa um conjunto de fenómenos que actua nos bastidores da mente humana e que alimenta um fluxo espontâneo e inevitável da energia psíquica, gerando continuamente uma produção de pensamentos, ideias, motivações e emoções. Cada pensamento e emoção produzida no campo da energia psíquica desorganiza-se, sofre o caos psicodinâmico e volta a reorganizar-se continuamente noutros pensamentos e emoções. O CA contribui, assim, decisivamente para gerar o fluxo vital da energia psíquica.
O CA é responsável pela leitura da história intrapsíquica, pela reorganização do caos da energia psíquica, pela produção dos processos de construção da mente, pela produção inconsciente das ideias e, consequentemente, pela educação, orientação e organização da consciência do EU.
O CA é accionado através de estímulos extrapsíquicos, intraorgânicos e intrapsíquicos. A sua energia é-lhe fornecida pela Ansiedade Vital mesmo que faltem estímulos internos (como pensamentos), externos (como sons e imagens) e intraorgânicos (como as mensagens dos neurotransmissores).
A ÂNCORA DA MEMÓRIA (AM)
A Âncora da Memória é um fenómeno psíquico inconsciente que desloca e é deslocada psicodinamicamente pela Autochecagem da Memória, pelo Complexo do Autofluxo (CA) e pela Consciência do EU. Refere-se a uma “fixação psicodinâmica” da leitura multifocal da história intrapsíquica em determinados territórios da memória.
A Âncora da Memória dirige o território da leitura da memória para um grupo de informações básicas que ficam disponíveis para serem usadas. O seu deslocamento direcciona a qualidade das ideias e reacções emocionais que produzimos num determinado momento da existência. Na verdade, ela dirige mais do que imaginamos a qualidade das nossas ideias e emoções.
Um exemplo: o deslocamento da Âncora da Memória nos ataques de pânico é rápido e dramático, gerando no paciente uma construção de ideias de que vai morrer ou desmaiar, e uma ansiedade tão angustiante que os médicos têm dificuldade em controlar no momento. Felizmente, os ataques de pânico duram cerca de 10 minutos mas, infelizmente, fica, registados na história intrapsíquica de forma traumática, gerando, mais tarde, novos ataques.
Esta âncora é poderosa. A liberdade plena de pensamento nem sempre é conquistada pela Consciência do EU mas dirigida inconscientemente pelos deslocamentos da Âncora da Memória, que restringe o território de leitura da memória.